Tormento

#Roteiro #Sketch

# A CENA #

Noite escura e nublada. Prisioneiras das nuvens, nem a lua nem as estrelas trazem a luz. Ao longe, uma silhueta cadavérica anda de um lado para o outro na escuridão, perdida e com a mão na cabeça. Poderia ser eu ou você. Talvez até seja. A figura percebe os espectadores e se aproxima lentamente, cambaleando e mancando como se lhe faltassem forças para ficar de pé. Conforme vai chegando perto, é possível perceber alguns detalhes em sua fisionomia: um olhar catatônico e olheiras profundas; uma gota de saliva escorrendo pelo canto de uma boca semiaberta, que se move discretamente como se tentasse dizer algo sem palavra alguma; as mãos na cabeça seguram com força os cabelos emaranhados, quase a ponto de arrancá-los. Continua se aproximando com o olhar vidrado.

Silêncio absoluto, até que um estampido ao fundo tira a figura do transe. Junto do estampido, uma luz branca intensa produz uma série de sombras no seu rosto, tornando-o ainda mais assustador. O sujeito move a cabeça lentamente para trás, em direção ao clarão. Após alguns segundos, volta o olhar novamente aos expectadores, com a novidade de um sorriso no rosto que fez aumentar tanto a saliva que escorria quanto a loucura na sua fisionomia.

Começa com a voz rouca e lunática:

# O MONÓLOGO #

O fim está próximo. Sim, finalmente. Mundo merda, que se exploda mesmo. E ainda querem me culpar pelas mazelas do planeta. “Geração mimimi” é o cacete. PRO INFERNO! Me deixaram um mundo em chamas… Viver é mais caro, sair na rua é mais perigoso, estar bom da cabeça é cada vez mais raro. Até o ar que eu respiro e o alimento que eu como são piores. Os antidepressivos são mais cotidianos do que o sexo. Virar adulto significa ficar pobre. Esse foi o mundo que me entregaram. Geração merda foi a anterior.

Baixei a cabeça por muito tempo, humilhei-me correndo atrás de sonhos velhos e empoeirados, ilusões vendidas por uma geração que sugou tudo o que pôde do planeta, até não sobrar mais nada. Fiquei ferido, fui à falência e caí por terra completamente vencido, de joelhos, rendido, rodeado por ruínas. Fiasco.

Convenceram-me de que eu era o problema, vil por ter medo. Tornei-me só a sombra do que eu sonhara ser. Escondi todo o pânico no fundo da minha alma e segui, vacilando pela vida, deixando como está para ver como fica. Em determinado ponto, preso em teias de aranha, a luz me fugiu dos olhos e me vi à míngua, definhando em meio a tantas penúrias que não eram minhas, mas que eu apenas havia herdado da geração anterior.

Mas de toda a angústia surgiu um desassossego; do desassossego, a fúria. O pânico guardado e reprimido entrou em erupção e a caixa de Pandora soltou o veneno do fim e de um próximo início. Frouxo? Nunca mais. Suas bombas continuam explodindo dentro da minha cabeça, suas fogueiras ainda me queimam a pele, a fome que vocês produziram ainda ronca em meu estômago, todos os dissabores que vocês semearam no mundo amargam na minha boca. Mas frouxo? Nunca mais.

É hora da ira, de inflamar as almas, confrontar os demônios e os donos do mundo. Fim da linha.

Frouxo? Nunca mais.

# O CORO #

Então, querem saber quem eu sou?
Sou a dor que dói em todos
E o alívio que nunca chega.
Sou o começo e o fim,
A síntese de tudo.
Sou toda a minha geração,
Todas as minhas irmãs e irmãos.
Somos O Louco n’O Mundo,
O ponto dentro do círculo,
A ordem no caos.
Somos o eterno retorno,
Estamos no limiar entre o acima e o abaixo,
Entre o dentro e o fora.
Somos o centro do Labirinto.
Vagamos em busca dos antigos mistérios
Da Vida e da Morte,
Ocultos por detrás do véu dos séculos,
Escondidos dos olhos profanos
De quem não enxerga a jornada.
“Sou filho da Terra e do Céu estrelado.
Tenho sede.
Dá-me de beber do Lago da Memória”.

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