Minha terra tem palmeiras…

#Conto

Dona Arlete é dessas personagens meio “síntese” do sofrimento humano. Pobre, parda, migrante e nordestina. Personagem prato cheio para escritor de esquerda. Veio para São Paulo com o marido que, por sua vez, veio atrás de um emprego de vendedor de qualquer coisa, já arranjado antes da viagem. Chegando aqui, dona Arlete se vira como consegue: cozinha para fora, costura, faz cabelo… Junta dinheiro e abre uma lanchonete; depois muda de bairro e abre um salão; depois uma papelaria; noutro lugar ela pega encomendas de doces para festas e por aí vai. E a instabilidade não era só na ocupação, mas na remuneração também, como é típico na vida dessas classes médias-baixas, principalmente as que carregam tantos marcadores sociais. Ora se compra um terreninho, ora se dá graças a Deus por não pagar aluguel; ora uma reforma na cozinha, ora um pedido de bolsa na escola dos filhos; às vezes uma viagem para ver a família no Rio Grande do Norte, às vezes um Natal magro e restrito. Ainda que com tantas inconstâncias, a inquietude de dona Arlete vai se tornando mais constante que as vendas do marido. E é através de um dia a dia pacato na aparência, mas cheio de suor nas entrelinhas, que Dona Arlete e a família constroem seu lugar ao Sol.

Mas o sonho de dona de Arlete não é material. Jamais almejou nada além do material necessário para construir uma vida digna para si e para os seus. Seu sonho mesmo era voltar para o Rio Grande do Norte, deixar tudo em ordem, os filhos formados, um pezinho de meia para não depender só da aposentadoria e voltar para lá.

Fora os prazeres que este sonho lhe despertava, eram poucos, raros e pequenos os deleites da vida que a animavam. Tomar uma cerveja na sexta-feira à noite, em casa mesmo, assistindo um DVD do Alceu Valença ou dos Bee Gees e dançando de frente para a TV; almoçar com a família aos finais de semana num restaurante tomando um vinho; poder pagar uma passagem para um irmão vir vê-la ou para ela mesma ir até a família.

Mas é o Rio Grande do Norte, somente o Rio Grande do Norte, que tem a capacidade de fazer de dona Arlete poetisa romântica, profunda filósofa existencialista e literata profícua. Fica cheia das figuras de linguagem e olhares vagos quando fala de sua terra, como se fosse estrangeira dentro de seu próprio país.

— Deus que me livre de morrer nessa terra fria. Morro é mal humorada desse jeito.

— Tenha dó, mainha, vire essa boca pra lá! — interpelava algum filho.

— Ah, meu filho… É que você não sabe do que tô falando! As praias, os ventos, aquela brisa fresca que amolece, o mormaço quente e gostoso… É lá no meu Rio Grande, na minha terra, que eu quero morrer.

— Oxe! E aqui num é sua terra, não, mulher?! Tu é brasileira, aqui ou lá…

— É que sou mais brasileira lá do que cá — respondia entre os dentes…

— E outra coisa. Por que não pode ser “VIVER”? “É lá que a senhora quer VI-VER”… Só me fala em morte, numa hora dessa…

— Porque não me bastasse gastar uma vida todinha nessa terra fria onde só se trabalha, ainda sinto que gastei foram logo duas: uma vida por ter vivido aqui e a outra por não ter vivido lá — dizia emocionada, principalmente se fosse numa sexta-feira de cerveja ou num domingo com vinho — Cada dia que passa é um dia a menos que tenho para passar na minha terra antes de morrer. De dia em dia, que já se somam tantos, sinto que só chego no meu Rio Grande para morrer mesmo…

— Chega de vinho, mainha…

Rosângela é também personagem do tipo frutífera na mão de escritor de esquerda: branca, rica e paulistana raiz. O estereótipo está dado. Filha de um pequeno-burguês muito próspero que ascendeu à burguesia propriamente dita, Rosângela nunca trabalhou. Conhece com a palma da mão Higienópolis, Jardins, Pinheiros, Perdizes… Estudou em colégio paulistano tradicional, em faculdade paulistana tradicional, tem casa de campo em cidade tradicional do interior de São Paulo e casa de praia em litoral paulistano tradicional. Não bastasse o berço de ouro, casou-se com um sujeito de classe média baixa que ascendeu, também, mas este à classe gerencial. Excelente mãe e esposa, sua vida gira em torno da família e das viagens pelo mundo rumo aos destinos que o trabalho do marido determina. Sabe inglês, francês e castelhano.

Já morou à beira da praia em Miami, mas odeia o calor; já morou em Copenhague, mas muito pacata; em Lyon, muito pequena; Toronto, muito frio. Acostumada às peculiaridades de São Paulo e tendo desfrutado de tudo que a cidade tem a oferecer, com seu clima ameno, a umidade moderada, uma megalópole que nunca dorme com tudo à disposição o tempo todo, é realmente difícil encontrar-se em outro canto do mundo do mesmo modo.

Foi numa das andanças pelo globo que Rosângela deu-se por si e sentiu suas origens pulsarem e falarem mais alto dentro da alma, passando pelo processo de epifania de quem finalmente se encontra no mundo. A cidade da vez era Tampa, na Flórida. O marido trabalhava de casa na maioria das vezes, e algumas outras precisava ir a Miami passar dois ou três dias. Começava a armar um temporal lá fora, a ventania chacoalhava os vidros das janelas e fazia 34º. Tampa vira uma panela de pressão quando chove após um dia ensolarado. A cena era de uma Rosângela dramática, como se sofresse com o calor lá de fora, um leque numa mão e um copo de limonada na outra, ainda que dentro da casa fechada com o ar condicionado fizesse somente 23º. Em pose de Carlota Joaquina, enquanto o marido devorava com os olhos uma planilha no computador:

— Eu não aguento esse calor, benhê… Eu não nasci para isso. — choramingava manhosa, tentando chamar atenção do marido.

— Calma, amor…

— Eu tô o tempo toda pegajosa, com a pele oleosa, olha só! — mostrava as pontas dos dedos com indignação depois de passá-las na testa.

— Já, já a chuva refresca…

— Eu sou descendente de europeus, benhê… Você sabe disso!

— É mesmo, amor…?

— Instalados em São Paulo há três gerações até a do papai, sabia? Eu e o meu irmão somos a quarta geração.

— É mesmo…?

— Meu DNA não está acostumado a este clima, benhê. Precisamos dar um jeito nisso!

— …

Percebendo o desdém do marido, assumiu um tom menos manhoso e uma face mais sisuda:

— Sinto falta do clima ameno, benhê. A brisa refrescante que se forma entre os prédios, a paisagem concreta, a garoa fraca no final do dia. Sabia que adoro caminhar na chuva fraca para ir tomar um café, benhê?

— Jura, amor…?

— Costuma nublar muito? Sim. O concreto da paisagem é excessivamente cinza? Claro… Mas é aconchegante, um aconchego que está carimbado na minha alma e na da minha família.

Então, olhando por alguns longos segundos pela janela, pensativa mirando a tempestade que se formava lá fora, suspirou sem se importar com a falta de atenção do marido e arrematou:

— Já sei, benhê… Vamos para Londres!

Assine nossa newsletter e receba novos textos por e-mail!


Descubra mais sobre Conto & Crônica

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Assine nossa neswletter e receba novos textos por e-mail!

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre Conto & Crônica

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo