A reportagem do fim do mundo

#Roteiro #Sketch

# 1º Ato – Introdução

## Cena 1 – Prelúdio

[Tela preta. Começa com o som distante de um rádio mal sintonizado, passando por diversas frequências. Logo, som de passos correndo. Começam distantes e ecoam como se viessem por um corredor estreito. O som do rádio vai desaparecendo à medida que os passos vão “chegando perto”. Então, param abruptamente. Ainda com tudo escuro.]

VOZ OFEGANTE:

— Saiam daqui. Corram agora! Vão, enquanto ainda há tempo. E já não há muito…

[Silêncio, seguido do som de goles sedentos numa garrafa d’água e de alguém esbaforido recuperando o fôlego.]

— O quê? Vocês ainda estão aqui? Não entenderam o que eu disse? CORRAM!

[Barulho de explosão, seguida de uma confusão de sons – entre sirenes, tiros e vozes robóticas repetindo “eliminar”, “abater”, “executar”, que aumentam de velocidade vertiginosamente. Silêncio. Tudo dura uns 5 segundos.]

## Cena 2 – O telejornal

[Começa a surgir lentamente o brilho azulado de uma TV antiga. Surge novamente uma gritaria incompreensível, mas dessa vez alegre. Quando fica claro que se trata de uma torcida de futebol, a luz acende, o som da torcida é interrompido e um cenário de estúdio de TV aparece. O foco da cena na tela não é a da visão dos telespectadores, mas o de alguém que assiste o jornal nos bastidores.]

JORNALISTA ESPORTIVO:

— E esses foram os gols da rodada. É com você, Renata.

ÂNCORA DO JORNAL:

— Obrigada, Daniel. Agora, um assunto sério. Vocês acreditam que é possível que estejamos vivendo o fim do mundo? O “fim do mundo”, gente. De ver-da-de! Robôs com Inteligência Artificial substituindo seres humanos, desemprego e fome generalizados, manipulação psicológica em massa… Dá para acreditar nisso? Confira todos os detalhes na reportagem da nossa jornalista especial, Agnes Weber.

# 2º Ato – A reportagem

## Cena 1 – A CPI e o caso “Mete e Mab & Ned”

[Este ato conta principalmente com um ator e duas atrizes. A primeira atriz interpreta a JORNALISTA ESPECIAL, séria e de roupas muito sóbrias, com um falar articulado típico de narradores de documentários. Ela descreve toda a problemática das redes sociais, apresentando cortes da vida real que ilustram pontos da reportagem ou apresentam a opinião de um especialista sobre determinado assunto. Esses cortes são representados pela ATRIZ 1 e pelo ATOR 1.]

JORNALISTA ESPECIAL:

— A catástrofe global pela qual passamos desde o advento da chamada IA, ou Inteligência Artificial, vem assumindo proporções irreversíveis. Até recentemente, tudo o que sabíamos era que a Mab & Ned Inc., proprietária da grande marca de robôs-mão-de-obra Ludd, era também dona de uma grande e obscura base de dados que abastecia a inteligência artificial das máquinas. Essa base é tão grande, que permite aos robôs um comportamento e uma assertividade de decisão praticamente humanos. Sabemos também que com seus robôs Ludd, a Mab & Ned conseguiu ocupar 75% das vagas de emprego – e contando – no mundo todo, não apenas se tornando o maior monopólio da história, mais rico do que qualquer outra empresa ou Estado, mas também deixando uma mancha de desgraça e pobreza por todos os países onde seus robôs passaram. O caso tomou proporções ainda mais graves a partir de um depoimento colhido ontem na CPI da IA de um ex-executivo de uma outra empresa, a Mete Inc., proprietária de diversas plataformas digitais e tida como a maior detentora de dados sobre pessoas físicas no mundo. Confira trechos do depoimento:

[ATRIZ 1 representa uma política interrogando o ex-executivo, interpretado pelo ATOR 1, numa CPI. O cenário simula a mesa de um parlamento, com microfones em hastes, onde estão sentados apenas os dois, um ao lado do outro e de frente para o que seria o parlamento, ocupado pelos demais membros da CPI.]

ATRIZ 1 – POLÍTICA:

— O senhor tem ciência de alguma relação entre a Mete Inc. e a Mab & Ned Inc.?

ATOR 1 – EX-EXECUTIVO:

— Sim.

ATRIZ 1 – POLÍTICA:

— Mais especificamente, o senhor tem ciência de alguma relação entre as duas empresas no que diz respeito à base de dados da Mab & Ned, objeto da nossa apuração?

ATOR 1 – EX-EXECUTIVO:

— Sim.

[Burburinho ao fundo]

ATRIZ 1 – POLÍTICA:

— Elabore, por favor.

ATOR 1 – EX-EXECUTIVO:

[Dando um longo suspiro antes de responder.]

— Mais de 80% dos dados sobre comportamento humano da base que a Mab & Ned usa para treinar seus robôs são provenientes dos usuários das plataformas da Mete.

[Burburinho mais alto que evolui rapidamente para vaias de protesto. Cessam rapidamente pois o foco volta à jornalista.]

JORNALISTA ESPECIAL:

— Ou seja, caro telespectador, você que utiliza as redes sociais da Mete, que sobe fotos, que troca mensagens, paquera, briga, realiza compras, avalia serviços, reage aos mais diversos tipos de acontecimentos do mundo, enfim, você que dedica boa parte da sua vida útil às redes sociais da Mete: saiba que você está treinando os robôs Ludd da Mab & Ned para te substituirem no seu trabalho! E de forma gratuita! É pouco? Vejamos outro trecho da CPI:

ATRIZ 1 – POLÍTICA:

— E como foi que vocês conseguiram financiar todos os testes, toda a engenharia da transferência de dados…? Quer dizer, tudo isso requer equipe, equipamento, licenças… Como vocês financiaram tudo isso por fora do controle dos acionistas, por fora do controle fiscal, sem a imprensa saber…?

ATOR 1 – EX-EXECUTIVO:

— Foi usado um fundo “com boas intenções” para camuflar as verbas destinadas ao projeto. Um fundo do qual nenhuma autoridade desconfiaria. Elaboramos uma engenharia financeira junto ao departamento pessoal da empresa e criamos um fundo que teria por objetivo funcionar como uma poupança complementar para os trabalhadores da Mete. A senhora mesmo, se não me engano, chegou a elogiar o projeto na época, apesar de ter assinado o documento que quis mudar o nome do fundo por força de lei:

[Diz com uma risadinha no canto dos lábios.]

— Estou falando do M-FPT: Mete – Fundo para a Poupança dos Trabalhadores.

ATRIZ 1 – POLÍTICA:

— O senhor está afirmando que a Mete utilizou o fundo de poupança complementar, dos seu próprios trabalhadores, importante ressaltar, para camuflar o desvio de verbas para um projeto cuja finalidade era a transferência dos dados dos usuários das redes sociais da Mete, sem que esses usuários, nossos cidadãos, soubessem, para a Mab & Ned treinar seus robôs?

ATOR 1 – EX-EXECUTIVO:

— Sim, senhora.

ATRIZ 1 – POLÍTICA:

— O fundo, a princípio para o bem dos seus próprios trabalhadores, tinha a exclusiva função de patrocinar essa aventura fora da lei com a Mab & Ned?

ATOR 1 – EX-EXECUTIVO:

— Na verdade, senhora, o fundo tinha por função camuflar verbas para outro destino também. Este segundo esquema, pelo menos, era conhecido por boa parte dos acionistas majoritários, e eles não achavam nada ruim.

[Burburinhos e gritos de “prendam este perturbador da verdade!” e “tirem este caluniador daqui!”.]

ATRIZ 1 – POLÍTICA:

[Exigindo ordem na plenária da CPI somente com o olhar]

— Prossiga.

ATOR 1 – EX-EXECUTIVO:

— Como é sabido, a Mete vem realizando investimentos em psicologia e neurociência voltados para marketing nos últimos anos. Os resultados foram tão eficientes que acabaram chamando a atenção das autoridades…

ATRIZ 1 – POLÍTICA:

— Ah sim, sim… O senhor está falando do algoritmo irresponsável que entregava conteúdo pornográfico para menores, conteúdo de modelos anoréxicas para garotas com bulimia, cenas de automutilação para adolescentes com padrão de comportamento suicida… Me lembro. É isso que o senhor chama de eficiente?

ATOR 1 – EX-EXECUTIVO:

— Chamo o algoritmo de eficiente avaliando os seus objetivos, não os seus efeitos colaterais… A eficiência do algoritmo está em quanto tempo ele consegue prender a atenção do usuário, e o quanto de conteúdo ele consegue entregar neste tempo. Quanto maior a quantidade de conteúdo entregue e engajado por minuto e maior a quantidade de tempo em frente a tela, mais eficiente o algoritmo é. Ou seja, mais eficiente em entregar conteúdo e coletar dados sobre as reações dos usuários a esse conteúdo. O efeito colateral é que o algoritmo refletiu e reproduziu os padrões de comportamento de viciados, doentes etc., entregando a eles justamente o que eles buscavam.

ATRIZ 1 – POLÍTICA:

— Certo, então o algoritmo era eficiente. E…?

ATOR 1 – EX-EXECUTIVO:

— Com todo o controle das autoridades em cima das pesquisas em neuromarketing, a Mete cortou boa parte dos investimentos na área, mantendo somente um valor padrão de mercado em P&D para marketing. O restante alocou na pesquisa encoberta pelo fundo. Nesta pesquisa extraoficial foram contratados psicólogos, psiquiatras e neurologistas especializados tanto em vício e dependência química quanto em transtornos compulsivos.

ATRIZ 1 – POLÍTICA:

— Já não parece bom, mesmo. Mas explique melhor o porquê dessas pesquisas e o porquê de elas terem sido encobertas.

ATOR 1 – EX-EXECUTIVO:

— Bom, parece bastante óbvio: o negócio da Mete é conseguir prender a atenção dos seus usuários, o máximo possível, custe o que custar. Quanto mais tempo de tela, mais rendem as ações e mais valiosa é a base de dados da Mete, pois mais precisas são as informações que ela tem sobre o comportamento humano. Então, se o objetivo é deixar todo mundo na frente da tela, o máximo possível… Com esta pesquisa, criou-se uma maneira extremamente sofisticada e sutil de deixar todo mundo viciado, literalmente, nas redes sociais. Busca-se injetar nos usuários estímulos que liberem dopamina numa quantidade e numa frequência dosadas, de forma a deixar todo mundo viciado em consumir os conteúdos entregues pelas plataformas. Qualquer minuto de ócio ou de espera desperta nas pessoas o comportamento compulsivo e repetitivo de sacar o celular do bolso e abrir alguma rede social. É um comportamento típico das ansiedades relacionadas à dependência química de nicotina ou de cocaína, por exemplo.

ATRIZ 1 – POLÍTICA:

— Então o senhor está dizendo que esta sensação que todo mundo tem de estar viciado em redes sociais, de toda hora estar com o celular na mão e rolando o newsfeed sem nem saber o porquê, sem nem lembrar quando e por qual motivo pegou o celular, tudo isso é REALMENTE um vício e um transtorno compulsivo induzido intencionalmente pela _Mete nas pessoas, em escala global_?

[Fez cara de reflexiva sobre o último trecho da sua frase.]

ATOR 1 – EX-EXECUTIVO:

[O ex-executivo espera alguns instantes para responder. Silêncio absoluto no parlamento. Ele olha bem nos olhos da política.]

— Sim.

[Balbúrdia generalizada na plenária. Corta de volta para a jornalista.]

JORNALISTA ESPECIAL:

— Como se não bastasse, caro telespectador e cidadão, você fornecer os seus dados, as suas decisões, as suas preferências, as suas reações, o seu próprio comportamento, tudo de graça e para treinar os robôs que estão te substituindo; não bastasse, ainda, que tudo isso fosse feito de maneira corrupta, por baixo da lei, _usando e abusando do fundo da poupança dos trabalhadores_…

[Faz uma pausa e dá uma pigarreada, se arrependendo da construção da sua última frase.]

Não contente com tudo isso, a Mete ainda deixou uma parte do mundo com sequelas nesta aventura gananciosa e irresponsável: transtornos de ansiedade, de atenção, de compulsão. Danos irreversíveis, em alguns casos. E, o pior: eles sabiam o que estavam fazendo. Estão queimando o seu tempo e a sua sanidade mental, junto com a do resto do mundo, como quem queima carvão para fazer uma locomotiva andar, para fazer a companhia férrea lucrar. Mais detalhes sobre as sequelas deixadas no mundo depois dos comerciais, não percam.

## Cena 2 – Propagandas

[Propagandas exibidas e narradas por narradores quaisquer.]

[1ª propaganda.]

ATRIZ 1 – NARRADORA:

— Se sente cansado o tempo todo? Sua cabeça parece não acompanhar mais a rotina? Distraído, procrastinando e frustrado? ÔMEGA 3! Agora com kit que acompanha complexo vitamínico para robôs Ludd, para aumentar o tempo de vida útil da bateria do seu amigão de lata também! Acesse nosso Mete para mais informações.

[2ª propaganda.]

ATOR 1 – NARRADOR:

— Cansado de procurar emprego? Envia mais de 200 currículos por dia e não recebe nem um retorno do RH? Você está fazendo errado! MENTORIA DE REALOCAÇÃO! Pare de procurar emprego, eu ajudo a trazer o emprego até você. Envie um Mete para nosso @ com seus dados pessoais e nos contando há quantos meses você está desempregado, que ficaremos felizes em lhe apresentar nossa tabela de valores.

## Cena 3 – Bloqueio criativo

[A JORNALISTA ESPECIAL passa a apresentar cenas que representam os diferentes efeitos colaterais das redes sociais. As cenas são interpretadas pelo ATOR 1 e pela ATRIZ 1.]

JORNALISTA ESPECIAL:

— Voltamos com a nossa reportagem especial sobre o fim do mundo. Agora, vem cá.

[A câmera aproxima da JORNALISTA ESPECIAL, que se reposiciona de forma a passar a impressão de mais intimidade e privacidade com o telespectador.]

— Você se sente cansado, sem foco, ansioso, distante dos seus relacionamentos? Calma, não é propaganda de novo. São sintomas de que você está ficando sequelado pelo uso abusivo das redes da Mete. Acompanhem:

[ATOR 1 e ATRIZ 1 entram em cena interpretando um casal de artistas. Conversam sem se olhar, cada um com seu celular.]

ATOR 1 – ESCRITOR:

[Cara de tédio, com uma mão no queixo e a outra com o celular passando um newsfeed, sentado numa mesa com um computador e um caderno de lado.]

— Não tenho conseguido focar no meu romance. Achei que era o trabalho, tirei uns meses sabáticos, e cá estou: nenhuma página escrita, somente uns rabiscos incoerentes no caderno.

ATRIZ 1 – MUSICISTA:

[Deitada na cama, de costas para o companheiro, com o celular bem próximo do rosto.]

— Também já não me lembro mais quando foi que compus uma música nova… Em que ano estávamos mesmo quando eu gravei minha última música? Acho que foi antes da pandemia…

ATOR 1 – ESCRITOR:

— Um casal de artistas, os dois com bloqueio criativo ao mesmo tempo. Genial.

ATRIZ 1 – MUSICISTA:

— Eu acho que precisamos viajar… É, é isso. Sair da cidade grande. Toda essa profusão de informações, barulho, horários regrados, tudo isso nos consome um tempo que, em outras épocas, era mais fácil canalizar para nossa arte.

ATOR 1 – ESCRITOR:

— Tem razão. Se lembra da nossa primeira viagem juntos? Duas semanas num sítio isolado para eu poder terminar meu primeiro romance. Duas semanas contemplando a natureza, fazendo amor, sem encontrar ou sequer ouvir a voz de outra pessoa, que não a de nós dois…

ATRIZ 1 – MUSICISTA:

— Meditar sobre o cantar dos passarinhos, sobre como o seu ritmo e a sua escala mudam ao longo do dia, acompanhando o caminhar do Sol no céu… Você terminou o seu livro no 10º dia.

ATOR 1 – ESCRITOR:

— E você compôs o arranjo de flauta daquele seu samba que eu amo… É isso. Já estou procurando aquele mesmo sítio aqui no app.

[Os atores mudam de roupa e de cenário para causar a impressão de passagem de tempo e de que chegaram ao sítio. Continuam conversando sem se olhar, cada um com seu celular.]

ATRIZ 1 – MUSICISTA:

— Você viu o meme que fizeram com o final do episódio de ontem da novela das nove?

[Tira rapidamente os olhos do celular para olhar o companheiro fazendo um gesto de “não” com a cabeça.]

— Vou te mandar.

ATOR 1 – ESCRITOR:

— Aproveita e olha o vídeo que te mandei! É um de uma capivara vestida de papai Noel num trenó puxado por labradores vestidos de rena.

ATRIZ 1 – MUSICISTA:

— Ai, não to sabendo lidar com esses pernilongos, não aguento mais, vou entrar e ficar no sofá.

ATOR 1 – ESCRITOR:

— Eu também. Esse barulho todo de galo, passarinho, sapo… Não dá pra ouvir nada e ainda esqueci meu fone em casa.

[À noite.]

ATOR 1 – ESCRITOR:

[Saindo do banho.]

— Meu amor, vem ver como estou cheiroso.

ATRIZ 1 – MUSICISTA:

[Deitada na cama, de costas para o companheiro, com o celular bem próximo do rosto. De novo.]

— Ai, amor, hoje não. Estou morrendo de dor de cabeça.

[Alguns dias depois.]

ATRIZ 1 – MUSICISTA:

[Apoiada sobre um violão e com o celular na mão.]

— Não vem nada… Só consigo tocar o repertório já existente. Não consigo criar nada… Até os meus improvisos estão ficando todo iguais.

ATOR 1 – ESCRITOR:

[Sentado de frente para o computador, com a cabeça apoiada sobre as duas mãos.]

— Dois dias para irmos embora e eu não consegui terminar nem o primeiro capítulo do livro… Não vem nada. Eu não entendo… Antes a minha cabeça era uma fonte inesgotável de ideias. Precisava até andar com um lápis e um caderninho no bolso, lembra? As ideias pingavam da minha cabeça como a água pinga de um pano encharcado, e eu precisava estar sempre atento para não deixar nenhuma gota escapar. Agora, mesmo torcendo o pano, nada. Nem uma gota Já tem uns 25 minutos que estou sentado na frente do computador, lendo e relendo os poucos parágrafos que escrevi, mas não consigo escrever mais nada.

[Se joga para trás da cadeira e tira o celular do bolso.]

— Eu não entendo o que vem ocupando minha cabeça no lugar das ideias…

JORNALISTA ESPECIAL:

— Como vocês podem ver, cabeça vazia é oficina da Mete. Mas mesmo quem tenta ocupar a cabeça com outra coisa, vem tendo dificuldades…

## Cena 4 – Dificuldade de leitura

[ATOR 1 entra em cena com roupas jovens. Falando sozinho com um livro de psicologia na mão.]

ATOR 1 – JOVEM:

— Três semanas para ler um livro com menos de duzentas páginas! E não é porque estou sendo obrigado, não. Eu leio porque quero ler, quero entender o que o livro diz, aprender sobre o assunto que ele ensina. Quero fazer psicologia, sabe? E queria já ir aprendendo sobre o assunto, mesmo antes de entrar na faculdade. Mas demoro tanto para ler que às vezes desanimo. E o pior? Quando eu finalmente termino a última página, mais de 20 dias depois de ter começado o livro, percebo que já não me lembro de mais nada que li. É frustrante.

[ATRIZ 1 entra em cena, com roupas sóbrias de uma psicóloga infantil, enquanto o ATOR 1 vai para o fundo da cena e fica alternando entre abrir o livro e mexer no celular.]

JORNALISTA ESPECIAL:

— Esta é Beatriz Barbosa, psicóloga e psicopedagoga especializada em letramento. Diga-nos, doutora, o que há neste caso?

ATRIZ 1 – PSICÓLOGA:

— Crianças criadas com telas têm dificuldade em desenvolver um raciocínio de aprendizagem linear. Em outras palavras, têm dificuldade de interpretar textos ou ideias longas, com começo, meio e fim. Pensem na lógica de um jovem pesquisando algo na internet: ele abre várias abas do navegador, com diferentes tipos de mídia sobre o assunto que está buscando. Abre uma página do wikipedia, pesquisa na página rapidamente pelo termo que busca e, pronto, primeira informação coletada; depois, avança um vídeo procurando o momento exato em que é apresentada a informação de que precisa, pausa, volta, assiste novamente; por fim, junta todas as informações que conseguiu e pede para a IA escrever um resumo consolidando tudo. Quando um jovem como este, interessado por psicologia, por exemplo, descobre que precisa ler dezenas de livros, do começo ao fim, para aprender sobre o assunto, ele congela. Não está preparado para despender tanto tempo e tanto esforço em busca de informações que ele julga estarem disponíveis de maneira mais fácil na internet.

JORNALISTA ESPECIAL:

— Obrigada, Beatriz.

[Chega a abrir a boca para emendar a próxima frase, mas é interrompida.]

ATRIZ 1 – PSICÓLOGA:

[Se esforçando para voltar para o foco da câmera.]

— Gostaria de aproveitar o espaço e pedir para todos me seguirem no Mete: é @bea.barbosa95.

JORNALISTA ESPECIAL:

[Com cara de quem foi pega de surpresa.]

— Certo… Seguimos avaliando as sequelas causadas pela Mete nas pessoas.

[Pigarreia novamente.]

— Sua filha tem Mete? Então fique de olho:

## Cena 5 – O ciúmes e a luxúria

[ATRIZ 1 e ATOR 1 entram em cena como um casal brigando.]

ATRIZ 1 – ELA:

— Eu vi, Roberto! Não adianta negar! Eu vi você no perfil daquela novinha com conta no mete-mete! O que você estava fazendo num perfil que só posta esse tipo de conteúdo?

ATOR 1 – ELE:

— Juliana, eu posso falar? Eu tava naquele perfil justamente porque eu pensei que conhecia aquela menina, pensei ser a irmã mais nova de um amigo meu. Pensei “Nossa, a irmã do fulano fazendo esse tipo de conteúdo? Eu conheço a família deles, que estranho…”. Aí entrei no perfil para ver se era ela mesmo porque já não a vejo tem o quê? Uns 3 ou 4 anos… E você sabe como é essa garotada nessa idade… Seis meses que você fica sem ver um adolescente, pronto. Já é outra pessoa. Mas aí você começou a gritar e, no fim, eu nem vi se era ela mesmo. Além do mais, você me conhece… você realmente acha que eu veria conteúdo hipersexualizando garotas de 16, 17, 18 anos…?

ATRIZ 1 – ELA:

— Não é porque você é de esquerda que deixa de ser homem…!

ATOR 1 – ELE:

— Mas, amor, isso é doentio… Ainda se você tivesse me visto no perfil de uma MULHER que produz conteúdo para o mete-mete, realmente poderia pensar algo de mim… Mas, o perfil de uma GAROTA?

[ELA olha por alguns instantes fixamente no olho d’ELE. Sai brava, mas conformada.]

[ELE, se certificando de que ela saiu mesmo, puxa o celular do bolso correndo e cancela rapidamente todas as inscrições no mete-mete, a começar pelas inscrições em perfis de novinhas.]

JORNALISTA ESPECIAL:

— Esse “mete-mete” é o nome do “aplicativo de patrocínio” da Mete. “App de patrocínio” significa você produzir conteúdos somente para assinantes pagos, que te “patrocinam” para você seguir produzindo esses conteúdos. Em português bem claro, 99,9% da rede produz conteúdo adulto e usa a plataforma como uma maneira de lucrar com esse conteúdo. A política de verificação da plataforma é bastante frágil, assim como o de qualquer outra rede da Mete. Centenas de milhares de menores de idade ganham rios de dinheiro produzido conteúdo adulto para estas redes. Além disso, os algoritmos das demais redes sociais da Mete bombardeiam meninos e homens com conteúdos de perfis de garotas com contas no mete-mete. O Roberto, deste caso que trouxemos para vocês, é apenas mais uma vítima dessa rede de pornografia construída pela Mete, assim como era vítima também a garota do perfil que ele estava vendo, e também a Juliana, sua namorada.

[Mudando o tom, para mudar de assunto.]

— Agora, por fim, o vício em si.

## Cena 6 – A epifania e o vício

[ATOR 1 e ATRIZ 1 entram no palco interpretando novamente o casal de artistas. Continuam conversando sem se olhar, cada um com seu celular.]

ATOR 1 – ESCRITOR:

[Rosto apoiado sobre a palma da mão, pensando – enquanto olha para o celular, claro. Falando baixo consigo mesmo.]

— “O que vem ocupando minha cabeça no lugar das ideias? O que vem ocupando minha cabeça no lugar das ideias…”

[Olhando fixamente para o celular.]

ATRIZ 1 – MUSICISTA:

[Deitada na cama, de costas para o companheiro, com o celular bem próximo do rosto. De repente, acaba a bateria do celular e ela se vê obrigada a virar para o outro lado e se depara com o companheiro naquela cena.]

— Você está mexendo no celular, ou o celular é que está mexendo em você?

ATOR 1 – ESCRITOR:

[Levanta os olhos, deixa o celular cair e faz cara de quem experimenta uma epifania.]

— Já sei! É isso! Eu já sei o motivo do nosso bloqueio artístico, meu amor! É esse celular maldito! É isso que vem ocupando a nossa cabeça 100% do tempo, não deixando espaço nenhum para as ideias! É isso… Bom, está decidido. Eu não entro mais nas minhas redes sociais até terminar o romance.

ATRIZ 1 – MUSICISTA:

[Reflexiva, mas também com cara maliciosa]

— Ah é?

ATOR 1 – ESCRITOR:

[Abaixando para pegar o celular que havia caído.]

— Celular? Agora só para as funções básicas: ligar, mensagem pra família, despertador… E chega.

ATRIZ 1 – MUSICISTA:

— Sem memes de capivara?

ATOR 1 – ESCRITOR:

[Parece pensar por um minuto nas capivaras, mas sacode a cabeça e segue determinado. Sem perceber, começa a rolar o newsfeed enquanto segue com o discurso.]

— Sim, senhora. Quero as minhas ideias de volta! Nenhuma rede social vai roubar minha arte de mim.

ATRIZ 1 – MUSICISTA:

[Indicando com a cabeça o celular na mão dele.]

— Amor?!

ATOR 1 – ESCRITOR:

[Fechando rapidamente o app com um vídeo de capivaras filhotes.]

— Ah, sim, claro… É… Eu só precisei checar uma última coisa. Vou trabalhar no romance agora mesmo!

[Deixa o celular ao lado. Estala os dedos e gira a cadeira em direção ao computador. Aperta a tecla Enter com convicção para pular uma linha e iniciar um novo parágrafo.]

— Vamos lá, ideias, podem voltar a ocupar este terreno aqui em cima.

[Passados três minutos encarando o parágrafo em branco, tem uma ideia. Pega o celular com menção a checar algo, mas logo se reclina na cadeira com o celular na mão e começa a rolar o newsfeed.]

ATRIZ 1 – MUSICISTA:

[Com cara maliciosa novamente.]

— Então, amor? As ideias estão voltando a ocupar esse terreno aí em cima?

ATOR 1 – ESCRITOR:

[Demora um pouco a perceber que está com o celular na mão. Quando percebe, se embaraça todo.]

— Ah, sim.. É, tive uma ideia, precisei só checar… Puxa, não consigo me lembrar o que me fez pegar o celular. Estou há muito tempo com ele na mão, será?

ATRIZ 1 – MUSICISTA:

[Ainda com cara maliciosa.]

— Não seria o caso de você desinstalar do seu celular os aplicativos de todas as suas redes?

ATOR 1 – ESCRITOR:

[Engole seco.]

— Bom, acredito que sim, mas… Mas, hoje é domingo! Amanhã inicio essa nova jornada na minha vida.

[Fecha o notebook e se joga na cama ao lado da namorada, com o celular na mão.]

— É isso. Agora eu vou me acabar em filhotes de capivara!

JORNALISTA ESPECIAL:

[Em tom reflexivo e profético.]

— Enfim… Como vocês podem ver, caros telespectadores, a humanidade parece perdida. Talvez somente um restart, como um novo dilúvio, possa nos salvar. Vivemos numa miséria crescente por conta dessa sanha em substituir a mão de obra humana por qualquer coisa mais barata. Mães e pais de família sem emprego, crianças sem comida, revoltas por todo canto suprimidas por robôs (pois a tropa de choque foi um dos primeiros trabalhos a ser substituído, por motivos óbvios). Ao mesmo tempo, estamos todos viciados nas redes sociais que nos consome tempo e sanidade. E nos deixaram viciados para poderem capturar o maior número de dados possíveis sobre o nosso comportamento, e com esses dados poderem abastecer a inteligência dos robôs, nossos algozes. Quanto mais inteligentes eles ficam, mais estúpidos nós ficamos. Em breve, eles perguntarão “qual inteligência é a artificial?”, e nós não saberemos responder. E estamos tão entorpecidos testemunhamos o apocalipse, vivenciamos o fim do mundo e dos tempos, todos concordamos sobre isso e sentimos todos os efeitos decorrentes dessa catástrofe generalizada, mas somos incapazes de sair daqui.

[Mudando o tom profético para um tom objetivo e conclusivo.]

— Agnes Weber, essa foi a reportagem sobre o fim do mundo.

## Cena 7 – Fim do jornal

ÂNCORA DO JORNAL:

[ÂNCORA séria.]

— Obrigada, Agnes. Vamos acompanhar atentos a tudo o que acontece no fim do mundo e, claro, manter você aí de casa informado sobre cada detalhe.

[Muda de câmera e de expressão.]

— O Jornal da Noite está ficando por aqui. Mas, vamos terminar falando de coisa boa? A seguir vem o Fofocas da Noite, trazendo os babados mais quentes sobre a semana dos famosos mais badalados na Mete-Social…

[O som vai desaparecendo aos poucos nesta última frase.]

# 3º Ato – Conclusão

## Cena 1 – Os telespectadores

[ATRIZ 1 e ATOR 1 interpretam um novo casal qualquer, sentados no sofá de uma sala. O “boa noite” da ÂNCORA DO JORNAL é retomado a partir da última frase da cena anterior, crescendo de volume, mas agora o som vem da TV da sala do casal.]

ÂNCORA DO JORNAL:

— … trazendo os babados mais quentes sobre a semana dos famosos mais badalados na Mete-Social! É já já! Tchau!

ATRIZ 1 – ELA:

[Com o celular na mão.]

— Nossa, você viu que absurda essa história do fim do mundo? Eu to vendo aqui, aquela POLÍTICA da CPI postou um @mete elogiando a reportagem, dizendo que ela ilustra muito bem o fim do mundo. Eu fico pensando… será que não deveríamos estar preocupados?

ATOR 1 – ELE:

[Com o celular na mão.]

— Menina! Eu acabei de postar uma enquete no meu mete-story perguntando exatamente isso!

# 4º Ato – Post scriptum

## Cena 1 – Epílogo

[Silêncio.]

[Começam barulhos de máquinas e batidas fortes, como robôs enormes andando com passos pesados. Som crescente.]

[De repente, silêncio novamente.]

VOZ ROBÓTICA:

— O quê? Vocês ainda estão aqui?!

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