O paradoxo do controle, as arapucas no STF e como chegamos até aqui

A História está recheada de mitos, fábulas e acontecimentos com o tema clássico do sujeito que cai nas armadilhas do próprio engenho.

Anansi, o deus aranha da religião Akan, preparava um delicioso inhame para comer. A Tartaruga chega cansada e com fome à sua porta e lhe pede comida. Anansi, egoísta, a deixa entrar, mas lhe coloca uma condição: “Suas mãos estão imundas, Tartaruga! Tenha a bondade de obedecer a uma regra de etiqueta da minha casa e vá lavá-las”. A Tartaruga vai até o rio lavar as mãos lentamente e, ao voltar, percebe que Anansi havia comido todo o inhame. “Obrigado por me acolher, Anansi. Esteja convidado para um banquete na minha casa, no fundo do lago”, disse a Tartaruga, chateada e com fome, mas sem perder a pose. Dias depois Anansi lembra-se da oferta e vai até o lago, mas não conseguia afundar para chegar até a casa da Tartaruga. Então ele coloca algumas pedras no bolso do casaco e mergulha, conseguindo chegar até lá. “Olá, Tartaruga, estou faminto”. “Pois não, Anansi, já está servido. Mas tenha a bondade de obedecer a uma regra de etiqueta da minha casa e tire o casado para sentar-se à mesa”. Então Anansi retira o casaco e retorna para a superfície sem conseguir comer.

Mas, para o nosso caso, esta mesma temática aplicada à política talvez seja mais interessante. Vejamos.

Ilustração de Anansi feita por Pamela Colman Smith – 1899

Robespierre, líder da Revolução Francesa e responsável por instaurar a fase da revolução conhecida como “Terror” (que em um ano guilhotinou mais de 15.000 pessoas), ficou obcecado pela necessidade de manter a revolução e sua virtude pública. Nessa obsessão, criou todas as justificativas possíveis para implantar o Terror e, com ele, perseguir e matar todos os “inimigos” da revolução. Dentre as mais de 15.000 pessoas guilhotinadas, figuravam alguns amigos pessoais e de revolução do próprio Robespierre: Danton, Desmoulins, Hébert… Ao fim, o terror da política obsessiva de Robespierre causou tal pânico generalizado, inclusive entre os apoiadores da revolução e seus aliados, que ele mesmo foi declarado um “Fora da Lei”. Segundo uma lei radical, promulgada para a própria segurança da revolução, condenados com este status poderiam ser executados em até 24h sem a necessidade de um julgamento formal. Em 28 de julho de 1794, Robespierre foi guilhotinado pela própria revolução, pelas próprias leis e pelo próprio terror.

Protótipo da guilhotina utilizada na Revolução Francesa

Um último caso antes de irmos ao que interessa (e que talvez traga ao leitor uma sensação de certas semelhanças com o cenário internacional atual).

Durante a ascensão de Hitler entre os anos 1930 e 1940, o nazista descumpriu sumariamente uma série de acordos internacionais do pós-primeira guerra, a maioria imposta pela Inglaterra e pela França, mas alguns também de aspecto mais multilaterais propostos pela Liga das Nações. O objetivo destes acordos era manter a paz na Europa e conter o ímpeto expansionista da Alemanha demonstrado alguns poucos anos antes. Esperava-se que o ocidente reagisse a esta escalada nazista para conter Hitler, mas nada foi feito. Inclusive a diplomacia inglesa da época, sob o comando do primeiro-ministro Neville Chamberlain, usava formalmente a palavra “apaziguamento” com relação a Hitler.

Para se ter uma idéia, em março de 1938, Hitler começa a colocar pressão sobre o chanceler austríaco Kurt von Schuschnigg para nomear ministros nazistas fantoches para o seu governo. Desesperado para manter a autonomia e independência da Áustria, ele coloca as exigências de Hitler sob plebiscito popular enquanto tenta costurar apoio internacional. Furioso, Hitler ameaça invadir a Áustria caso o plebiscito não seja cancelado. Sem conseguir apoio internacional (nem da Inglaterra e da França!), Schuschnigg cede e renuncia ao cargo. Em 12 de março de 1938 as tropas nazistas cruzam a fronteira para se apropriarem da Áustria.

Não satisfeito e com sensação de impunidade, Hitler começa a atuar para desestabilizar a invadir a região dos Sudetos (na então Tchecoslováquia, atuais República Tcheca e Eslováquia). Acredite o leitor ou não, mas Chamberlain (líder inglês) e Daladier (líder francês) foram até a Munique assinar um acordo com Hitler, entregando a ele a região que ele desejava sem retaliação (Tratado de Munique – 1938). E sabem quem mediou o encontro? Benito Mussolini, líder fascista italiano (sic!).

Neville Chamberlain, Edouard Daladier, Adolf Hitler, Benito Mussolini (Conferência da Paz em 1938 – Munique).

Enquanto tudo isso acontecia, os EUA mantinham uma política isolacionista com relação à Europa, concentrados em seus próprios problemas com a Quebra da Bolsa de 1929.
Mas, afinal, o que estava por trás de tanta passada de pano do ocidente para Hitler?

Primeiro, os nazistas conseguiram agitar a sua própria população para reagir à derrota na primeira guerra e retomaram o entusiasmo com a política expansionista da Alemanha. Na Inglaterra e na França, por outro lado, a opinião pública clamava por paz e ainda guardava o trauma da guerra.
Segundo, a política econômica de Hitler (e a expansionista também) tinha como objetivo uma economia alemã autossuficiente. Inglaterra e França, por outro lado, estavam amarradas à economia (e à crise) norteamericana.

Por fim, o terceiro ponto pode se resumir a um nome: Stálin. O nazismo era ideologicamente contra o liberalismo e contra o comunismo, mas Hitler nutria um ódio especial pelo marxismo. Os líderes ocidentais enxergavam neste ódio a estratégia perfeita para conter o comunismo da União Soviética: com uma Alemanha expansionista e anticomunista no meio do caminho e mantendo uma relação de amizade e tolerância com Hitler, uma guerra entre Alemanha e URSS parecia inevitável. E aí, neste contexto, independentemente de quem ganhasse ou perdesse, ambos sairiam bastante machucados e fracos perante o ocidente. Mas não contavam com o Pacto Molotov-Ribbentrop, assinado entre Alemanha e URSS em agosto de 1939, garantindo um tratado de paz de dez anos entre os dois países, além de dividirem entre si o leste europeu.

Então a arapuca estava desenhada: ingleses, franceses e norteamericanos toleravam Hitler, na esperança de que ele chegasse às vias de fato com os comunistas; os comunistas, por sua vez, com o comando da URSS já cheirando a enxofre, decidem fazer o pacto com o diabo. Todos achavam que estavam manipulando Hitler de acordo com seus próprios interesses. O que fica claro hoje, para quem olha com a perspectiva histórica, é que o erro dos dois lados foi não enxergar que ambas as políticas só favoreceram Hitler.

No fim, uma Alemanha fortalecida fez com que Hitler traísse e expandisse para os dois lados. O resto é História, mas graças a Deus (e por pouco) não somos obrigados a usar bandeiras nazistas em nossas casas até hoje.
Neste ponto, de Anansi até Robespierre e Chamberlain, o que pretendi demonstrar é o que chamei de “paradoxo do controle” no título. Seja pela soberba de Anansi, por achar-se no controle pela suposta astúcia; seja pela obsessão de Robespierre com o controle sobre os inimigos da revolução; seja pela diplomacia supostamente estratégica de Chamberlain e Stalin para controlar Hitler e a Europa: quem tenta armar as arapucas de controle precisa cuidar para não cair nelas.

As arapucas na nossa República

Agora vejamos as arapucas armadas na nossa própria realidade.
Há um problema histórico na nossa democracia recente: um certo holofote sobre a nossa suprema corte, o Supremo Tribunal Federal (STF). As supremas cortes pelo mundo, salvo algumas situações específicas, não costumam figurar nos noticiários com tanta frequência. Os ministros destas supremas cortes não costumam ser muito conhecidos, não dão entrevistas em talk shows populares e nem dão palestras. Enfim, não têm seus nomes na boca do povo. Mas aqui é diferente.

Podemos elencar algumas razões principais para isso:

  1. Uma constituição bastante ampla, o que acaba transformando em debate constitucional praticamente qualquer tema;
  2. Um legislativo omisso e ineficiente, que se aproveita da constituição ampla para delegar ao STF que decida ou referende/revise constantemente decisões legislativas;
  3. Para mim, o principal: as constantes crises republicanas entre os poderes e os escândalos de corrupção envolvendo autoridades, que colocam o STF nas polêmicas dos noticiários e nas rodas de opiniões políticas.

E qual o problema de um STF protagonista? Bem, é um pressuposto básico que o poder judiciário, especificamente quem julga, seja isento de opiniões e lados sobre quem ou o que está julgando. Faz parte de um pacto republicano: o juiz é uma espécie de ser ungido na república, afinal, julgar sobre os outros é uma tarefa que precisa de muita confiança pública. É por isso que um juiz deve ser reservado sobre suas opiniões políticas, deve ser cuidadoso sobre sua imagem e precisa ser impecável sobre sua integridade. Quando um juiz entra no tribunal para julgar, não se pode haver dúvidas sobre a imparcialidade e a integridade de seu juízo.

Juízes polêmicos, que aparecem constantemente em noticiários e expõem constantemente suas opiniões, ou que aparecem constantemente como juízes de grandes casos escandalosos e se vêem obrigados a tomar decisões que favorecerão ou prejudicarão A ou B no cenário político, estes juízes estão condenados a perecerem diante da opinião pública e seus julgamentos a perderem credibilidade.

Depois de Mensalão, Lava-Jato, impeachment, anulação da Lava-Jato, tantas polêmicas do governo Bolsonaro, tentativa de golpe do Bolsonaro, escândalo do banco Master, escândalo do INSS… Ufa! Depois de todo esse processo histórico, com cada um destes fatos criando um furacão na República e colocando o STF no olho de cada um destes furacões, a nossa suprema corte está completamente minada perante a opinião pública.

E não é para menos. Algumas figuras do STF são demasiadamente histriônicas e polêmicas. Vejamos alguns casos:

As arapucas no STF

Gilmar Mendes

Gilmar Mendes, por exemplo, é a figura mais odiada na suprema corte pela opinião pública. Conhecido como o grande articulador político do STF, o peso das suas relações com políticos das outras esferas de poder é no mínimo promíscuo. Afinal, como pode um ministro de suprema corte, responsável por julgar crimes cometidos por autoridades com foro privilegiado, ser amigo de tantas destas autoridades? Apenas para relembrar alguns casos:

  1. Em 2008, uma conversa telefônica entre Gilmar Mendes e Demóstenes Torres (à época presidente do Senado e filiado ao DEM) foi vazada, revelando a proximidade entre os dois [ Diálogo grampeado entre Gilmar Mendes e Demóstenes Torres, segundo transcrição da revista “Veja” – EXTRA – 01/09/08](https://extra.globo.com/noticias/brasil/dialogo-grampeado-entre-gilmar-mendes-demostenes-torres-segundo-transcricao-da-revista-veja-568642.html ).
  2. O ministro também é muito próximo de Michel Temer (MDB), ex-vice presidente e ex-presidente da República (também já investigado em casos sob relatoria do STF). [ Para juristas, amizade entre Temer e Gilmar levanta dúvidas sobre imparcialidade de ministro no TSE – BBC – 03/04/17;  Temer discutiu sucessão da PGR em jantar com Gilmar Mendes – O Globo – 29/06/17].
  3. Gilmar Mendes também era próximo de diversos tucanos. Em 2017, um relatório da PF identificou 46 ligações entre Aécio Neves e Gilmar Mendes em poucos meses. Numa dessas conversas, vazada na íntegra, fica evidente não somente essa proximidade, mas a atuação política de Gilmar Mendes para garantir os interesses de Aécio Neves ante outros tucanos. O senador pede para que Gilmar fale com Flexa Ribeiro (então no PSDB) para convencê-lo a votar numa proposta de sua autoria (de Abuso de Autoridade, para tentar frear a espetacularização da Lava-Jato). Ao que Gilmar responde não só que falaria com Flexa, mas que já havia falado com Tasso Jereissati (PSDB) e com Antonio Anastasia (PSDB). Outra ligação, do total de 46, ocorreu no mesmo dia em que Gilmar Mendes tomou uma decisão favorável a Aécio Neves no STF (adiar o depoimento do senador à Polícia Federal). [ PF: Aécio ligou para Gilmar no dia em que o ministro tomou decisão favorável ao tucano – O Globo – 19/10/17;  Em transcrição de áudio da PF, Aécio pede ajuda a Gilmar Mendes sobre lei de abuso de autoridade – G1 – 19/05/17].

Dias Toffoli

O Ministro Dias Toffoli, nomeado em 2009, conseguiu manter uma atuação longe de grandes polêmicas até recentemente. Até o caso Master, as maiores polêmicas envolvendo o ministro ocorreram em:

  1. 2019, quando abriu o famigerado inquérito da Fake News. [ Toffoli abre inquérito para apurar ‘notícias fraudulentas’, ofensas e ameaças a ministros do STF – G1 – 14/02/19];
  2. 2020, logo após deixar a cadeira da presidência do STF, quando ofereceu um jantar a Jair Bolsonaro, Davi Alcolumbre (presidente do Senado) e Kassio Nunes Marques, dois dias depois da nomeação do último ao STF. Segundo Toffoli, foi um encontro por “amizade” e para assistir a um emocionante Palmeiras x Ceará pelo campeonato brasileiro. [ Toffoli diz que Bolsonaro foi a encontro em sua casa por amizade – Folha de SP – 04/10/20];
  3. 2023, quando ele anulou as provas do acordo de leniência da Odebrecht no âmbito da Lava-Jato e disse que a prisão de Lula foi um dos maiores “erros judiciários da História”. [ Toffoli anula provas do acordo de leniência da Odebrecht e diz que prisão de Lula foi um dos maiores ‘erros judiciários da história’ – O Globo – 06/09/23];

Então, na virada de 2025 para 2026, a coisa começou a ficar esquisita. Dias Toffoli foi sorteado relator do caso Master e começou a adotar medidas bastante heterodoxas, para não dizer suspeitas. Primeiro, impôs um sigilo tão extremo ao caso, que não seria possível nem acompanhar seus passos mais básicos [ Toffoli decreta sigilo sobre pedido da defesa de Vorcaro – G1 – 02/12/25]; depois, determinou uma acareação incomum, sem que a PF ou qualquer outro órgão solicitasse [ Toffoli mantém acareação no caso Master; especialistas dizem que medida é incomum e constrange representante do Banco Central – Valor Econômico – 26/12/25]; por fim, mandou lacrar e guardar as provas do caso no próprio STF, dificultando o acesso à própria investigação da Polícia Federal [ Caso Master: Toffoli determina que bens e documentos apreendidos pela PF sejam lacrados e armazenados no STF – G1 – 14/01/26].

Mais. Em dezembro de 2025 a imprensa começa a desvendar alguns elos. Na data de 27/11/2025, a defesa de Vorcaro solicita que o inquérito contra o banqueiro seja remetido ao STF e o pedido é distribuído ao ministro Dias Toffoli. NO DIA SEGUINTE, 28/11/2025, Toffoli viaja em avião particular ao lado de Augusto Arruda Botelho, advogado do diretor de compliance do Banco Master, para assistir a final da libertadores entre Palmeiras e Flamengo. [ Ministro do STF Dias Toffoli viajou para final da Libertadores com advogado do caso Banco Master – G1 – 07/12/2025].

Toffoli lutou contra tudo e contra todos para manter-se na relatoria do caso Master. Mas em fevereiro de 2026 a casa caiu.

Tanta indiscrição por parte do ministro levantou suspeitas e não demorou para a polícia federal e a imprensa começarem a trazer mais respostas: já em 11/01/26 a Folha de São Paulo divulga as relações da família do ministro com o Banco master através do Resort Tayayá; um mês depois, em 12/02, a PF entrega um relatório a Edson Fachin, onde consta que dois irmãos de Dias Toffoli eram sócios de um resort de luxo no Paraná (o Resort Tayayá); o resort, por sua vez, era financiado por fundos de investimento ligados à malha financeira de Vorcaro e o ministro teria recebido valores destes fundos ao vender cotas da participação no resort. [ Relatório da PF entregue ao STF apontou indícios de possíveis crimes de Toffoli – Folha de São Paulo – 12/02/26].

No mesmo dia em que esse relatório veio à tona, reuniões tensas aconteceram nas salas do STF até a noite, quando veio uma nota com a decisão: o ministro Dias Toffoli não era mais o relator do caso Master. O acordo foi: os demais ministros rejeitaram a suspeição contra ele aberta pelo presidente da corte, Edson Fachin, e ele abandonaria o caso. [ Toffoli deixa o caso Master – Folha de São Paulo – 12/02/26].

Luiz Fux

Outra figura marcada do STF. Nomeado por Dilma Roussef em 2011, Fux tem polêmicas e tem lado bem demarcado para o opinião pública. Vejamos:

  1. Em 2014 concedeu uma liminar polêmica garantindo auxílio moradia de R$ 4.300,00 para todos os juízes federais. Isso aconteceu em 16/09/2014. [ Ministro do Supremo concede auxílio-moradia para todos os juízes federais – G1 – 16/09/14]. Dez dias depois, em 26/09/2014, estendeu a liminar para juízes do Trabalho e Militar. [ Fux concede mais duas liminares e estende auxílio-moradia a todo o Judiciário – Estadão – 26/09/14].
  2. Em 2016 o ministro ficou conhecido pela frase de Sérgio Moro “In Fux we Trust”. Fux reuniu-se reservadamente com Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa da Lava Jato, demonstrando apoio a ele e Moro após uma “bronca” do ministro Teori Zavascki sobre o vazamento ilegal dos áudios entre a então presidente Dilma Roussef e o ex-presidente Lula. Segundo Dallagnol:
    1. “Caros, conversei com o Fux, mais uma vez, hoje. Reservado, é claro: o ministro Fux disse quase espontaneamente que Teori fez queda de braço com Moro e viu que se queimou. E que o tom da resposta do Moro depois foi ótimo. Disse para contarmos com ele para o que precisarmos, mais uma vez. Só faltou, como bom carioca, chamar-me para ir à casa dele rs. Mas os sinais foram ótimos. Falei da importância de nos protegermos como instituições. Em especial no novo governo”.
    2. O caso veio à tona em 2019 após o vazamento das mensagens da força tarefa: [ ‘In Fux we trust’, disse Moro a Deltan em mensagem vazada – VEJA – 12/06/19].
  3. Em 2018 Fux proibiu o ex-presidente Lula, então candidato e preso, de dar entrevista à Folha de São Paulo. [ Fux proíbe Folha de entrevistar Lula e determina censura prévia – Folha de São Paulo – 28/09/18].
  4. Também em 2018, o ministro votou para inocentar o então deputado e candidato a presidente, Jair Bolsonaro, da acusação de racismo. A acusação era da PGR devido a uma fala de Bolsonaro numa palestra:
    1. “Eu fui em um quilombola (sic) em Eldorado Paulista. Olha, o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada! Eu acho que nem para procriador eles servem mais.”
    2. [ Novo presidente do STF, Fux já censurou Lula e inocentou Bolsonaro. – UOL – 07/09/20].
  5. Logo após a tentativa de golpe em 08 janeiro de 2023, Fux integrava a ala punitivista da corte, seguindo o relator Alexandre de Moraes na condenação de mais de 600 réus envolvidos nos atos. Mas em setembro de 2025, durante a votação da segunda turma do STF para condenar os núcleos organizadores do golpe, o ministro mudou de ideia. Votou pela absolvição de Jair Bolsonaro e de outros 5 réus da trama golpista, alegando que eles planejaram o golpe, mas não executaram, num voto que levou mais de 13 horas. [ A repercussão na imprensa mundial após voto divergente de Fux no julgamento de Bolsonaro – VEJA – 11/09/25]. Depois disso, Fux passa a rever as suas próprias decisões anteriores sobre os peixes pequenos do 08 de janeiro para abrandar as penas. [ Fux admite ‘injustiça’ e vota para absolver réus do 8/1 que havia condenado – VEJA – 11/04/26].
  6. Agora em 2026, mensagens no celular de Vorcaro mostram que ele solicitou pessoalmente para que acomodassem o filho do Ministro Fux no seu camarote VIP na Sapucaí. [ Filho de Fux foi a camarote VIP de Vorcaro na Sapucaí – Folha de São Paulo – 17/03/26]. Também ficou-se sabendo que o mesmo filho de Fux esteve presente no famigerado jantar com uísque em NY bancados por Vorcaro para diversas autoridades. [ Castro conta a aliados detalhes de jantar e uísque pagos por Vorcaro – Metrópoles – 11/06/2026].

Alexandre de Moraes

Aqui o buraco é tão embaixo que eu vou deixar o grosso das polêmicas envolvendo Alexandre de Moraes anteriores a 2018 nesse Saiba Mais aqui embaixo.

É simplesmente inacreditável que uma figura com este histórico tenha se tornado um ícone de parte da esquerda. O “Xandão” (sic!).

Mas o importante para nós aqui foram os grandes embates entre Alexandre de Moraes e o governo Bolsonaro. Foi isso que transformou o ministro em figura intragável por grande parte da opinião pública.

  1. Em março de 2019, comecinho do governo Bolsonaro, o ministro Dias Toffoli abriu um inquérito que viria a dar (e ainda está dando) pano para manga, e designou Alexandre de Moraes como relator. É o famoso “Inquérito das Fake News”, aberto para investigar a propagação sistemática de mentiras sobre ministros da Suprema Corte. O problema? Isso colocou o STF nos papéis conflitantes de vítima, de instituição responsável pela abertura da investigação e de instituição julgadora, gerando várias controvérsias no debate público. A partir daí, Alexandre de Moraes passou a determinar o bloqueio de contas de redes sociais de diversas pessoas ligadas ao bolsonarismo que propagavam mentiras. Não entremos aqui no mérito dos bloqueios. O importante é o desgaste que isso causou ao ministro e o tempo de imprensa que todo esse inquérito teve e ainda tem, pois segue aberto, quase 8 anos depois [ Toffoli abre inquérito para apurar fake news e ameaças contra ministros do STF – Folha de São Paulo – 14/03/19];
  2. Em 2020 surgiu mais um inquérito: o do atos antidemocráticos, também sob a relatoria de Alexandre de Moraes. O STF passou a investigar a organização e o financiamento de manifestações de cunho antidemocrático, também atingindo aliados do presidente Bolsonaro [ No STF, Moraes autoriza abertura de investigação sobre atos antidemocráticos – UOL – 21/04/20];
  3. Em 2021, Moraes acata um pedido da PGR para encerrar o inquérito dos atos antidemocráticos, mas abre mais um: o das milícias digitais, dando sequência às investigações [ Saiba o que o inquérito dos atos antidemocráticos no STF descobriu e por que a apuração empacou – Folha de São Paulo – 13/06/21];
  4. Depois de Sérgio Moro pedir para sair do governo Bolsonaro, acusando o presidente de interferência na Polícia Federal em investigações que envolviam o seu filho, Flávio Bolsonaro, hoje candidato a presidente, Moraes caiu como relator da investigação sobre o assunto [ STF prorroga por 90 dias inquérito sobre suposta interferência de Bolsonaro na PF – UOL – 07/01/22];
  5. Em 29 de julho de 2021 o então presidente Bolsonaro fez uma live, alegando sem provas que sabia que as urnas tinham vulnerabilidades e poderiam ser comprometidas. Em 04 de agosto Moraes determinou que Bolsonaro fosse incluído no inquérito das fake news [ Moraes inclui Bolsonaro em inquérito de fake news por ataques às urnas – UOL – 04/08/21];
  6. Em 12 de agosto de 2021 Moraes abre outra investigação contra Bolsonaro, dessa vez porque o presidente divulgou informações sigilosas de um inquérito da Polícia Federal sobre um ataque Hacker ocorrido em 2018 aos sistemas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) [ Moraes acolhe notícia-crime do TSE e manda investigar Bolsonaro por vazamento de inquérito sigiloso – Folha de São Paulo – 12/08/21];
  7. Em 20 de agosto de 2021 o próprio Bolsonaro enviou ao Senado um pedido de impeachment de Alexandre de Moraes [ Bolsonaro entrega pedido de impeachment contra ministro Alexandre de Moraes- UOL – 20/08/21];
  8. Em 07 de setembro de 2021, durante manifestação da direita por conta do Dia da Independência, Bolsonaro sobe o tom, chamando o ministro de canalha e dizendo que não acataria mais ordens de Alexandre de Moraes [ Bolsonaro desafia STF e diz que não cumprirá decisões de Alexandre – UOL – 07/09/21];
  9. Moraes determina a prisão de Roberto Jefferson, Allan dos Santos e Daniel Silveira [ Moraes, do STF, manda prender deputado Daniel Silveira após ataques a ministros da corte – Folha de São Paulo – 16/02/21]; [ Roberto Jefferson é preso pela PF, após determinação de Alexandre de Moraes – UOL – 13/08/21]; [ Moraes determina prisão do blogueiro bolsonarista Allan dos Santos – UOL – 21/10/21]. Todos aliados de Bolsonaro;
  10. Em 21 de abril de 2022, no dia seguinte à prisão de Silveira, Bolsonaro concede uma graça constitucional individual a ele, impedindo a prisão [ Bolsonaro concede perdão a deputado Daniel Silveira, condenado pelo STF – UOL – 21/04/21];
  11. Junho de 2022, Alexandre de Moraes é eleito presidente do Tribunal Superior Eleitoral e viria a presidir as eleições daquele ano [ TSE não tolerará milícias, diz Moraes ao ser eleito presidente da Corte – UOL – 16/06/22];

E a partir daqui o caldo engrossa ainda mais. Finamente ficou claro o porquê das repetidas investidas dos militares, do Bolsonaro e do seu entorno contra o STF, o TSE e as urnas eletrônicas: em 08 de janeiro de 2023, uma semana após a posse do novo presidente eleito, um grupo de manifestantes de direita que acampava em frente ao quartel-general do Exército em Brasília marchou rumo à Praça dos Três Poderes e simplesmente destruiu tudo. A pauta dos manifestantes? Contestação do resultado das urnas, intervenção militar e ruptura institucional. Após investigação, descobriu-se planos do entorno político de Bolsonaro para sequestrar, prender e matar adversários políticos, como o presidente e vice-presidente eleitos e o próprio Alexandre de Moraes, presidente do TSE.

Este foi o momento de maior tensão política no país desde a redemocratização. Por isso, a investigação iniciada pela PF e pela PGR para apurar a tentativa de golpe talvez tenha sido a investigação mais importante da história do Brasil até ali: já sofremos muitas tentativas de golpe em nossa história e sempre anistiamos nossos golpistas (e pagamos caro por isso). Era urgente que as instituições brasileiras reagissem e estabilizassem a República, demonstrando que o Brasil era irrevogavelmente uma democracia moderna.

Mas houve um problema: no momento em que o Brasil precisava de serenidade e seriedade para conseguir apaziguar a situação e desfazer de vez o caldo golpista, impedindo uma possível nova tentativa, o plenário do STF decidiu manter Alexandre de Moraes à frente da relatoria do inquérito sobre a trama golpista. A escolha por manter o ministro, que já era ali o inimigo número 1 da direita e que constava também como alvo de atentados nos planos golpistas, incendiou o processo e perdeu legitimidade perante parte da opinião pública.

Depois vieram os depoimentos (dos generais e do ex-presidente Bolsonaro); depois vieram as condenações; depois vieram os longos embates sobre a prisão domiciliar de Bolsonaro… No meio desse processo todo, uma boa parte dos setores democráticos, principalmente da esquerda, decidiram idolatrar o ministro Alexandre de Moraes e, com isso, aceitaram o ritmo da dança imposta pela extrema direita: “Alexandre de Moraes é esquerdista comunista!!”, diziam os bolsonaristas; “Ah é? Então vem cá, Xandão! Ele é MEU esquerdista, deixa ele em paz!”, decidiu uma parte da esquerda.

Além de reforçar um posicionamento de Alexandre de Moraes perante a opinião pública, esta atitude de setores democráticos enfatizou muito mais o personalismo e o populismo do que de fato o processo jurídico e político em curso no país. Uma análise mais serena da situação envolveria compreender que a eleição de Lula atiçaria mais ainda a extrema direita e que o golpe não terminaria ali. Envolveria também compreender que o foco do inquérito deveria ser investigar e prender os organizadores de toda a trama, presentes no governo Bolsonaro e em partes do exército, e o foco político deveria ser apaziguar a opinião pública. Mas os chamados “peixes pequenos” (aqueles que participaram da depredação em Brasília no 8 de janeiro, mas não eram organizadores ou planejadores do golpe) foram investigados e julgados pelas instâncias superioras também, e com extremo rigor. Isso contaminou a discussão política, criando mártires e vítimas dentro de um processo político que deveria ser decantado e acabou reforçando a narrativa de perseguição. Não bastasse, após a condenação de Bolsonaro ainda tivemos uma extrema demora por parte de Alexandre de Moraes em lhe conceder prisão domiciliar (o que não mudaria em nada no processo), estando o criminoso evidentemente doente. É “direitos humanos” que a gente de esquerda costuma chamar?

Enfim, passados todos estes eventos, quando Alexandre de Moraes começou finalmente a ficar mais distante dos destaques dos jornais, outra bomba (e novamente perto de período eleitoral): a sua relação com Vorcaro e o Banco Master.

  1. Primeiro a imprensa divulgou, ainda em dezembro de 2025, que o escritório da esposa do ministro, a advogada Viviane Barci de Moraes, teria um contrato no valor de R$ 3,6 milhões ao mês (AO MÊS!!). [ Master contratou escritório da família de Moraes por R$ 3,6 mi ao mês, diz jornal – Folha de São Paulo – 11/12/25];
  2. Em seguida e ainda no mesmo mês, a jornalista Malu Gaspar publica em sua coluna n’O Globo que Moraes teria se reunido com Galípolo (presidente do Banco Central) para tratar do Banco Master e defender a operação com o BRB perante o Banco Central. O ministro negou, dizendo que reuniu-se para falar sobre a Lei Magnitsky (sanções financeiras aplicadas pelos EUA). [ Moraes diz que falou com Galípolo sobre Lei Magnitsky; jornal relatou pedido de ministro sobre banco Master – Folha de São Paulo – 23/12/25];
  3. O ministro André Mendonça retira o sigilo sobre parte do material do caso Master que revela mensagens entre Alexandre de Moraes e Vocaro. No dia primeiro de setembro, a imprensa divulga mensagens em que Vocaro pede ajuda a Moraes sobre seu caso junto a Andrei Rodrigues, diretor-geral da polícia federal e Paulo Gonet, procurador-geral da República. A troca de mensagens revela também que o banqueiro sabia previamente de várias fases da operação da PF contra ele e chega a perguntar para o ministro se “acha que segunda tenho que estar fora?”, sobre uma possível fuga. Na tal segunda-feira, 17 de novembro, ele foi preso quando tentava sair do país. [ Veja as mensagens trocadas por Alexandre de Moraes e Vorcaro, segundo a PF – UOL – 01/09/26].
  4. Recentemente, enquanto este texto está sendo fechado, a imprensa divulgou a íntegra do contrato da esposa de Moraes com o banqueiro Daniel Vorcaro: R$ 131 milhões ao longo de três anos. [ Contrato de mulher de Moraes com Master fala em consultoria estratégica perante a PF; leia a íntegra – Folha de São Paulo – 11/09/26]. Além disso, a imprensa já havia divulgado que nos metadados do documento era possível ver que um usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes” teria acessado e editado o documento. [ O que é o rastro digital que levou a PF ao ministro Alexandre de Moraes – BBC Brasil – 02/09/26].

Esse rapaz pacato e de vida tranquila é o Alexandre de Moraes, caro leitor. Ufa…

Edson Fachin

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Edson Fachin durante sessão plenária. (Antonio Cruz/Agência Brasil)

Edson Fachin é sujeito quieto e reservado. Difere de tantas outras figuras da suprema corte nesse aspecto. Sua única grande polêmica até a crise atual do STF foi em março de 2021, quando anulou de forma monocrática as condenações de Lula na Lava-Jato, tirando o peso da ficha-suja dos ombros de Lula e abrindo espaço para que o petista disputasse a eleição do ano seguinte. [ Fachin anula condenações de Lula, e petista fica apto a disputar eleição de 2022 – Folha de São Paulo – 08/03/21].

Mas o ministro teve a infelicidade de estar sentado na cadeira da presidência do STF durante uma das maiores crises da corte: o envolvimento de ministros com o caso Master (Dias Toffoli e Alexandre de Moraes citados mais diretamente, mas também Luiz Fux e Kassio Nunes Marques indiretamente) e uma possível seletividade por parte do ministro André Mendonça, relator do caso, que estaria protegendo Flavio Bolsonaro em detrimento de outros nomes envolvidos no caso, como o do senador petista Jaques Wagner. [ Blindagem de Flávio e Toffoli reforça seletividade de Mendonça no Master – UOL – 11/09/26]. Além dos nomes de dentro do supremo, estão no centro do furacão o direto-geral da polícia federal, Andrei Rodrigues, e o procurador-geral da República, Paulo Gonet.

Fachin é central diante da crise instaurada na República. Como presidente do STF, tem poder para determinar quebras de sigilo de investigações e trocar relatorias de inquéritos. Mas seus primeiros passos diante da crise passaram a imagem de um presidente da suprema corte fraco e incapaz. Demorou muito para tomar providências e posicionar o STF enquanto instituição diante dos fatos. Somente um dia antes do fechamento deste texto (fechado na noite de 11/09/26), Fachin determinou a quebra do sigilo das investigações do caso master [ Mendonça retira sigilo de parte dos inquéritos do caso Master em resposta a pedido de Fachin – Folha de São Paulo – 10/09/2026]. Com a acusação de Moraes de que os sigilos derrubados e entregues por Mendonça foram seletivos [ Crise no STF ganha novos capítulos com troca de despachos e ofícios de ministros – UOL – 11/09/26], Fachin atende a uma solicitação da PGR e determina que Mendonça derrube o sigilo integral das investigações em até 24h.

Além disso, está marcado para terça-feira (15/09) o julgamento do envolvimento de Moraes no caso Master, mas a situação está completamente traspassada de incertezas. Uma ala do STF pressiona para que o julgamento seja fechado. Outra ala, quer aberto. Diversos setores dentro e fora do STF querem que André Mendonça seja julgado também. Alexandre de Moraes quer direito a voto sobre o próprio afastamento. Gilmar Mendes quer que Fachin assuma a relatoria dos casos Master e INSS. Mendonça e Flavio Dino se digladiaram através de decisões monocráticas, afastando e reintegrando Andrei Rodrigues ao cargo de diretor-geral da polícia federal. Fachin anulou as duas decisões.

Engolido pelas disputas internas da corte, o presidente do STF dificilmente sairá ileso de todo este processo.

Bolsonaro e Lula de volta a Anansi e Robespierre

Jair Bolsonaro, que teve atritos com o STF durante todo o seu governo e que tentou preparar um cenário para dar um golpe, bancou a suposta astúcia de Anansi, indicando para o STF dois nomes que lhe favoreceriam depois: Kassio Nunes Marques e o “terrivelmente evangélico” André Mendonça.

Kassio Nunes Marques, cujo filho está implicado com Vorcaro. Uma consultoria chamada “Consult Inteligência Tributária” recebeu R$ 18 milhões do Master e da JBS (sendo a totalidade do faturamento da empresa). O escritório do filho de Nunes marques recebeu diretamente R$ 280 mil desta consultoria [ Consultoria ligada a filho de Nunes Marques recebeu R$ 6,6 mi do Master e R$ 11,3 mi da JBS – Folha de São Paulo – 20/03/26]. E André Mendonça, ex-AGU e ex-ministro da justiça de Bolsonaro, que assumiu o cargo depois que seu antecessor, Sérgio Moro, pediu demissão alegando interferência do governo Bolsonaro na polícia federal para favorecer Flavio Bolsonaro. Terrivelmente evangélico e terrivelmente passador de pano. [ Bolsonaro confirma Mendonça na Justiça e Ramagem, amigo de seus filhos, na Polícia Federal – Folha de São Paulo – 28/04/20].

Lula, já no cenário pós tentativa de golpe, bancou a obsessão por controle de Robespierre e decidiu bailar conforme a dança promíscua das indicações de Bolsonaro, seguindo critérios muito mais políticos e pessoais do que jurídicos para as indicações ao STF, na esperança de poder controlar o processo político, de poder governar e de poder evitar um novo golpe. Primeiro, para a vaga deixada pela aposentadoria de Ricardo Lewandowski, Lula indicou Cristiano Zanin, figura marcadíssima na opinião pública por ter atuado como seu principal advogado no processo da Lava-Jato, tendo ficado famoso pelos seus embates com o então juiz Sérgio Moro. Além de ter atuado como advogado pessoal de Lula, Zanin não teria os requisitos para assumir uma vaga no STF. Geralmente os indicados ao STF são especialistas em Constitucional, Civil e/ou Público, principais áreas do direito que competem à suprema corte. Zanin é especialista em direito empresarial e contencioso de grandes litígios, talvez a área mais corporativista do direito.

Depois indicou Flávio Dino, político tradicional da esquerda, já tendo sido governador e figura marcada na opinião pública. Antes de ser indicado para o STF? Era ministro da Justiça de Lula. Entrou para a vaga deixada pela aposentadoria compulsória de Rosa Weber. E o Lewandowski, lá do começo? Foi assumir o ministério da justiça no lugar de Dino. Uma promiscuidade. Por fim, o melhor nome que Lula tentou nomear, o de Jorge Messias, foi barrado pelo Senado.

Ao fim, ambos (Lula e Bolsonaro) têm os filhos e o próprio destino político nas mãos de um STF totalmente minado diante da opinião pública (sendo que algumas dessas minas foram eles mesmos quem implantaram).

Flavio Bolsonaro está comprometido numa relação próxima com Daniel Vorcaro, revelada através do vazamento de áudios que mostraram o senador e candidato a presidente pedindo US$ 24 milhões (de DÓLARES!!) para o financiamento do filme sobre Dark Horse, sobre o pai. O que chama atenção, além da proximidade do senador com o banqueiro, é a quantia extremamente alta para o financiamento de um filme sem grandes atores ou efeitos. [ Flávio Bolsonaro negociava recursos para ‘Dark Horse’ com Vorcaro, e Eduardo era gestor do dinheiro, diz PF – Folha de São Paulo – 11/09/26]. E tem mais. A produtora do filme, Go Up, e sua dona Karina da Gama, não possuíam experiência alguma com áudio visual. Karina Gama também é presidente de uma ONG (Instituto Conhecer Brasil) e tem um contrato de R$ 157 milhões com a prefeitura de São Paulo pela prestação de serviço de instalação de pontos de wi-fi. [ Karina da Gama: quem é a produtora de ‘Dark Horse’ alvo de operação da Polícia Federal em SP – G1 – 10/09/26].

Lulinha, por sua vez, está implicado no escândalo do INSS, que atravessou os governos Temer, Bolsonaro e Lula. [ Entenda a operação que apura fraudes em benefícios do INSS – Folha de São Paulo – 18/12/25]. O filho do presidente Lula tem uma amiga de negócios em comum com o famoso Careca do INSS (principal operador do esquema): Roberta Luchsinger, lobista. Esta recebeu repasses do Careca do INSS e, numa mensagem divulgada, o operador do esquema ordenava um dos pagamentos a empresa dela se referindo ao destinatário como “filho do rapaz”, que levantou suspeitas sobre o filho do presidente. Além disso, Lulinha viajou com o Careca para Portugal, com tudo pago por este último. [ Entenda as suspeitas sobre amiga de Lulinha investigada no caso do INSS – Folha de São Paulo – 20/05/26].

Na ânsia de controlar o processo político, Lula e Bolsonaro semearam suas próprias perdições (e do país inteiro junto). Não importam os resultados das investigações em questão, uma parcela considerável da sociedade não aceitará os desdobramentos e julgamentos do STF. E a espiral da crise continuará girando. E estamos prestes a ir às urnas.

Conclusão (ou, Cármen Lúcia: um luxo)

Citamos ao longo do texto 9 dos atuais 10 ministros do STF.

Cármen Lúcia é a ministra mais lúcida e independente da suprema corte. Não teve seu nome citado em nada comprometedor e não é uma pessoa de fortes amizades políticas, como Dino, Moraes e Gilmar Mendes, por exemplo. Não se presta a votos polêmicos e populistas. Não se enquadra nem numa turma nem na outra dentro do STF. Mas também não é inimiga de ninguém.

Seria um luxo termos a opção de delegar a Fachin a mediação dos conflitos no STF e à Cármen Lúcia a relatoria dos casos Master e INSS. Seria um suspiro.

Mas a Fortuna não quis que tivéssemos paz. Essa opção é remota. Ou Fachin assume a relatoria para si, ou teria que chamar um novo sorteio. Num novo sorteio, estariam fora Alexandre de Moraes (suspeito), Toffoli (já afastado) e Mendonça (que seria afastado para haver sorteio). Sobram 6. Destes, 5 têm lado perante a opinião pública. As chances seriam de 1/6 para Cármen Lúcia e o Brasil.


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Resposta

  1. Avatar de Thiago Lomas

    Texto cirúrgico e extremamente necessário!

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